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Albatrozes feridos Imprimir E-mail
Escrito por Franco G. Rovedo   
Qui, 01 de Setembro de 2016 23:04

O Brasil dos anos 70 vivia o milagre econômico; as inaugurações de obras ocorriam todos os dias. Qualquer novidade era motivo de festas e eventos que traziam atrações especiais durante os finais de semana. Casimiro Rosa, o "Sócio", estava sempre atento a estas programações e oferecia as demonstrações de paraquedismo do clube. Aliás, esta disposição e empenho foram grandes responsáveis pelo desenvolvimento do esporte no Paraná.

Em certa ocasião, a pequena cidade de Paraná City contratou a equipe do Albatroz para fazer a entrega das chaves na inauguração do DDD local. Festa com direito a transporte com o carro do governador e toda a pompa e circunstância de direito.

Na falta de pessoal mais experiente, Casimiro escalou dois jovens alunos cheios de entusiasmo e coragem: o Selva e o uruguaio Jorge Ferrero, o "Tupamaro". O piloto, Francisco Perez, com pouca experiência à época, mas aceitou o desafio, pois achou que não havia nada que pudesse dar errado.

O Cessna 180, PT-IJB, levou pouco mais de duas horas entre Curitiba e Paranavaí, o aeroporto mais próximo do local do evento. O carro do prefeito já os aguardava com instruções para levar os paraquedistas para reconhecer a cidade vizinha, onde seria a festa. Enquanto uma parte da equipe foi para identificar e sinalizar o alvo para aterragem, a outra ficaria em Paranavaí e removeria a porta e os bancos do avião.

Depois de considerar a direção do vento e obstáculos para aproximação, o local escolhido para a aterragem foi em frente à rodoviária, em uma pequena área demarcada com um lençol sobre o asfalto. O combinado foi receber o pagamento após o segundo salto da tarde sendo que o primeiro aconteceria assim que retornassem para o aeroporto.

Já em voo sobre Paraná City, Casimiro orientou a reta para o salto e lançou o sonda enquanto identificava a área para a aterragem. O povo já se reunia em volta do alvo aguardando a chegada dos famosos Albatrozes de Curitiba.

O "Sócio" saiu por primeiro, "Selva" em seguida e o "Tupa" por último. A navegação com o velame estava ocorrendo bem até que Casimiro percebeu que de última hora haviam estendido um cabo elétrico, provavelmente do som, justamente na entrada do alvo. Uma aterragem normal seria impossível, ele teria que usar toda sua experiência para passar por cima do cabo e não atingir nenhum espectador. A aterragem foi um pouco dura, mas bem sucedida. O problema seria com os alunos pouco experientes na época.

Selva se aproximou alto demais, e para não cair sobre a multidão, manteve o PTCH7 freado até tocar o chão com muita força. Felizmente, o resultado foi apenas uma fratura do pulso.

Jorge se aproximava do alvo e também percebeu que deveria chegar alto e frear antes. Assim que conseguiu ultrapassar o cabo, reduziu a velocidade horizontal do seu paraquedas. Do mesmo modo que o Selva, ele estolou e desabou de uns cinco metros de altura, diretamente sobre o alvo. A plateia aplaudiu a precisão do pouso e nem percebeu o uruguaio sair mancando ajudado pelos companheiros.

O problema agora seria fazer o segundo salto. Sem ele, nada de pagamento e isso seria uma tragédia para o orçamento do Albatroz. Os dois feridos concordaram que as dores eram suportáveis e conseguiriam fazer a última demonstração. Por segurança, Casimiro combinou com o prefeito que a próxima aterragem deveria acontecer no campo de futebol.

Para fazer o lançamento em uma só passagem, o combinado foi formar uma estrela de três e comandar os paraquedas de modo que o Sócio aterrasse primeiro, depois o Selva e por último o uruguaio. A ordem de saída foi como no salto anterior, porém quando o Tupamaro foi pisar no estribo do 180, o pé torceu mais um pouco e passou a doer muito mais. A ideia de aterrar com aquela dor infernal era assustadora, mas inevitável.

Acompahando a descida do amigo, Selva e o Casimiro perceberam que o caso era grave e prepararam uma "cadeirinha" com os braços. Restava Tupa navegar corretamente e atingir o alvo móvel para evitar tocar o chão com o pé quebrado. O que aconteceu foi que ele aterrou sobre o pulso quebrado do Selva derrubando os dois que faziam a cadeirinha e batendo o pé fraturado com violência.

A manobra foi aplaudida com entusiasmo pela população presente nas arquibancadas do campo. Ninguém havia ouvido falar em um paraquedista que houvesse pousado sobre os companheiros. Era uma apresentação memorável.

Mas a aventura não tinha acabado. A mudança do local da demonstração atrasou o cronograma fazendo com que o salto acontecesse mais tarde do que o esperado. O retorno para Curitiba ocorreu com apreensão. Perez queria alternar para outro aeródromo por receio de chegar a Curitiba à noite e com o tempo fechado.

Os dois feridos, sofrendo de dores, concordaram em arriscar o pouso no Afonso Pena, em São José dos Pinhais.

O primeiro contato com a torre foi desolador; o controlador negou o pedido de pouso. Nem o avião e nem o piloto estavam preparados para voo noturno por instrumentos. Para piorar havia uma camada de nuvens que impedia a visão da pista. A única opção foi contar a verdade de forma um pouco exagerada: declarar emergência médica.

Com muito pouco combustível, Perez encontrou um buraco na camada e mergulhou em direção da pista. Além de acender as luzes, o controle providenciou uma ambulância, talvez para se certificar que a emergência médica era autêntica. Os quebrados exageraram a gravidade dos ferimentos tentando livrar a barra do comandante Perez. O instrutor de paraquedismo Casimiro "Sócio" Rosa permaneceu como enfermeiro administrando todos os remédios encontrados a bordo. Os feridos não precisaram atuar muito, pois estavam completamente atordoados com a quantidade de analgésicos que tomaram.

Esta foi uma demonstração inesquecível para o Albatroz. Ao final da aventura, Jorge "Tupamaro" foi o que mais saltou. Dois saltos em Paraná City e muitos mais até a Clínica de fraturas... Em um só pé.

 

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