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Os idosos e os computadores Imprimir E-mail
Escrito por Administrador   
Qua, 27 de Agosto de 2008 22:33

Muitos dos nossos companheiros dizem que ainda não abriram seus "baús" porque estão esperando pelo neto ou pelo sobrinho para que copiem o material para o computador e nos mandem por e-mail.

Para aqueles que ainda não estão à vontade com os computadores transcrevemos aqui este oportuníssimo artigo publicado no Jornal TQS News - Ano XII Nº 27 - Julho 2008

Por que os idosos sentem tanta inibição para aceitar o uso de computadores?

Por Prof. Eng. Augusto Carlos de Vasconcelos

De um modo geral, as pessoas sentem-se muito presas aos costumes adquiridos na infância. Isto se torna bem perceptível ao observar as reações em relação à alimentação. Conforme a região em que a criança cresceu, sua aceitação por determinados alimentos é fácil de adivinhar. Crianças que cresceram em ambientes costeiros, como na orla da praia, aceitam mais facilmente a ingestão de ostras, mariscos, lulas e outros frutos do mar, quando sua família coloca na mesa pratos com tais iguarias. Crianças que cresceram em regiões de pasto aceitam facilmente pratos com carnes sangrentas, quando seus pais costumam servir tais alimentos.

Conheci uma pessoa do interior que não suportava qualquer dos miúdos de boi (miolo, rins, fígado, dobradinha, mocotó, língua, rabada...) mas comia normalmente formiga frita (içá!) com seus abdomens crescidos. Isso mostra que, quando foram treinadas desde a infância a ingerir tais alimentos, eles passaram a fazer parte da dieta considerada aceitável. Hoje todos nós encaramos com asco certas comidas usuais na China, tais como olhos de cabra, espetinhos de escorpião, rodelas de cobra, escaravelhos, etc...

Isto acontece em todos os campos. Como é difícil para um adulto alfabetizar-se e segurar uma caneta!!! Como é difícil executar qualquer tarefa simples e banal como trocar uma tomada ou a vedação de uma torneira, quando não se preparou desde a adolescência para tais tarefas... Um adulto que nunca usou qualquer equipamento com botões, mesmo sendo pessoa instruída, quando solicitado a fazer simples operações numa calculadora de bolso, fica no princípio totalmente inibido. Tem receio de que possa queimar algum circuito, colocar o equipamento em situação de risco, ou obter resultados falsos quando aperta botões errados. Só se sente à vontade quando, depois de várias tentativas mal sucedidas, verifica que nada de grave aconteceu. Percebe que basta retomar as mesmas operações desde o início e que os erros anteriores foram ignorados. Logo percebe quando perde dados armazenados ao guardar novos valores no mesmo lugar...

O que mais atrapalha o iniciante é o uso de novas terminologias que ele desconhece, ou que conhece com outro significado. Por exemplo, a palavra "salvar" não é usada com o significado que ele aprendeu na infância. Salvar para ele é "evitar um dano", "recuperar uma pessoa em perigo", "tratar de alguém doente". Na linguagem da informática "salvar" tem um significado todo especial: "guardar", "armazenar". Não deixa de ser "evitar que se perca". Trata-se de colocar algo numa gaveta onde possa ser facilmente encontrado. Somente o uso repetitivo da palavra dá liberdade suficiente a ponto de até mesmo esquecer o significado anteriormente aprendido. Outra palavra difícil de entender é "editar". Os dicionários da língua portuguesa explicam: edição é a impressão e publicação de uma obra. Não é esse o significado em informática. Deve-se separar "editar" de "imprimir". Imprimir é colocar um texto, uma figura, um desenho ou uma imagem em disponibilidade de uso fora do equipamento, não necessariamente em papel, disquete ou CD. Editar é colocar uma idéia, um desenho, um esclarecimento, em termos compreensíveis para uso e torná-los utilizáveis por outros em qualquer momento. Por isso, depois de feita a descrição inteligível, o material deve ser guardado (salvado) em algum lugar que permita sua recuperação rápida e simples, sem modificações.

"Deletar" é uma expressão nova que vai sendo infiltrada em nosso idioma. Significa "apagar" (de "delete" em inglês). É o mesmo que "limpar". Significa esvaziar uma gaveta, um arquivo, uma apresentação na tela, algo guardado em algum lugar. Essas expressões "arquivo", "tela", "pasta", e muitas outras, também precisam ser aprendidas e memorizadas.

"Diretório" é outra palavra misteriosa. No dicionário Aurélio, "diretório" é o conselho encarregado da gerência de negócios públicos, ou livro que contém as indicações necessárias para o desempenho de determinado cargo ou para execução de certos negócios. Em informática, não é nada disso. Vem do inglês "directory" em má tradução: lista, relação dos membros de uma associação, livro de endereços, catálogo de telefones. Poderia ser também "diretoria". Demora algum tempo para o idoso aceitar que "diretório" é uma lista dos arquivos ou pastas guarda-das na memória do computador e de fácil acesso. Estou errado?

"Fonte" não é a origem de um manancial; não é um chafariz; não é a conexão com a rede elétrica domiciliar; não é um dos lados das têmporas; não é ferro gusa ou derretimento de metais da língua francesa. É o tipo de letra impressa, podendo ser confundido com o termo da linguagem tipográfica "corpo" ou "caixa". Não consegui descobrir a origem desse termo, que nenhum aficionado da informática questiona. Ele o aceita como a coisa mais natural do mundo. E pronto.

"Copiar" é uma palavra de fácil assimilação: consiste em fazer uma réplica idêntica ao original e guardá-la em lugar de fácil acesso. Quando o comando "copiar" é acionado, a réplica feita ainda não está localizada em lugar seguro, mas fica em certo lugar da máquina, desde que não se desligou. É necessário encaminhar a réplica (ou cópia) para algum lugar, alguma gaveta, conhecida com um nome previamente escolhido. Quando alguém perguntar "onde está?" recebe a resposta "está na gaveta nº 15". A operação de guardar (salvar) na gaveta nº 15 é batizada com o nome "colar". Portanto, colar nada tem a ver com "grudar". Significa "colocar a cópia feita em...". Todos esses termos, e são numerosos, precisam ser usados com desenvoltura, mesmo que seu significado não seja totalmente compreendido com precisão. Trata-se de um novo aprendizado. É contra tal aprendizado que se desenvolvem reações contrárias dos idosos. Uma criança aceita o novo termo com grande facilidade e o absorve imediatamente. Talvez venha a ter alguma dificuldade em conhecer o termo com seu significado gramatical.

Outras palavras mais difíceis ainda de interpretar são: monitor (não tem o significado de "aquele que dá conselhos"), processador (é a parte do equipamento onde se processam as operações e não o indivíduo que maneja!), gerenciador (não é aqui "aquele que dirige uma empresa"), modelador (não é o que usa massa plástica para modelar um animal). As palavras que mais intrigam, entretanto são "chip" e "offset". A primeira não significa lasca, nem batata frita. É algo que não aparece nos dicionários, nem em português nem em inglês. É um conhecimento que precisa ser passado verbalmente e quando se pergunta a alguém experiente em informática, a resposta é sempre a mesma: Você ainda não sabe o que é um chip? O idoso fica totalmente inibido para continuar a conversa, como se fosse a criatura mais estúpida do mundo. Offset não significa compensação, balanceamento, equilíbrio, descentrado. Também não é "imprimir em ofsete". É algo inexplicável. Você precisa aprender a usar esse termo sem pensar no que significa. Não tem nada a ver com a lógica. Os já treinados não conseguem imaginar que você não saiba o que é um "offset rígido". É uma barra fictícia para transferência de um esforço para um ponto conhecido, por exemplo, para o centro de gravidade. Deixa pra lá.

Desde que Bardeen, Brattain e Schockley inventaram o transistor em 1947, e Kilby juntou numa mesma placa de silício resistência, capacitor e transistor, as comunicações sofreram uma revolução de maior repercussão ainda do que a Revolução Industrial. O mundo de hoje já não é mais o mesmo e o idoso precisa se adaptar a isso.

Vencida essa primeira dificuldade, o idoso precisa se certificar de que qualquer que seja o equipamento, ele exige uma fonte de energia. Tal energia pode provir de uma bateria (pilha), da luz solar, ou de uma rede elétrica doméstica. Ele precisa tomar conhecimento de que tipo de energia deve ser usado. Nenhum equipamento, ainda, funciona apenas com energia mental. Enquanto tais equipamentos não estiverem à nossa disposição, será necessário verificar qual a característica do fornecimento de energia (voltagem, freqüência) para não estragar o equipamento, a menos que se trate de equipamento bi-volt ou equivalente. É a única precaução que o usuário precisa cuidar para não danificar seu instrumento.

O idoso precisa ser informado de que nenhum botão que seja acionado "dará choque". Não existe essa possibilidade. O que pode acontecer é limpar o que está guardado nas gavetas. Mesmo assim, em alguns casos, existem recursos para recuperar o que se perdeu. Quando se perceber que o botão errado foi inadvertidamente acionado, há, algumas vezes, o recurso "desfazer a operação anterior".

Até que tudo isso se torne automático, demora algum tempo e, tanto mais, quanto mais arraigado aos costumes for a pessoa.

Meu conselho é o seguinte: nem tente saber o porquê das coisas, nem os "expertos" sabem. Eles aprenderam como uma criança aprende a falar. Nem passa pela cabeça deles perguntar por que se chama assim. É assim porque é, e acabou-se. Com o tempo você estará falando em chips, deletar, monitor, gerenciador, diretório, fonte, ... sem saber o que significam tais termos. Mas saberá usá-los e vai deixar os outros idosos embasbacados com o seu conhecimento fantástico. Você deleta, cola, transfere, recupera, ... faz o diabo a quatro e dá certo. Se outro idoso vier perguntar-lhe o que fez, você calmamente responde: não adianta explicar, você não vai entender nada!

É isso aí.

 

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